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Monday, January 24, 2022

Por algum motivo nós achamos que temos algo sempre em falta.

Durante alguns anos estive a correr por ai, numa correria desenfreada de alguma coisa, não material, mas de um sentimento especifico que eu própria nunca tinha sentido. Talvez seja um sentimento que eu teria relacionado ao sentimento de berço, mas que como ser consciente nunca tinha tido a oportunidade de experienciar. A falta desse sentimento num todo fez com que as minhas pernas corressem depressa demais para sentir o caminho, e a mente voasse demais para que o meu coração pudesse respirar. Os anos passaram, e tudo aquilo que julguei ser esse sentimento dissipou-se com o tempo. O pano caiu e foi-me revelando sistemas de traumas e conexões geradas com lágrimas e dor. Que aquilo que julguei ser esse sentimento era apenas um abrir de uma portinha de vulnerabilidade no meu coração, um entrar de rompante virando todos os móveis do avesso, era o som do rasgar dos papeis de parede, era o cheiro dos meus frascos de perfume partidos e o sabor da sopa que fiz para o nosso jantar pelo ralo.

Hoje sei os motivos pelos quais o abuso era sinónimo desse sentimento que tanto procurava numa correria onde o meu cabelo mudava a cada tentativa de recomeço. Talvez sempre soubesse e talvez seja mais fácil correr o mundo todo na procura de algo desconhecido do que confrontar que a única coisa que conhecemos como seguro é exactamente aquilo nos que nos matou os sonhos de pequeninos e a leveza de ser. 

Hoje sei que sempre soube os motivos pelos quais o abuso era sinónimo desse sentimento que tanto procurei e nesse tempo que procurei me escondi de mim e da razão, à espera que surgisse algo exterior que me salvasse da magoa de hoje saber que sempre soube os motivos.

A verdade é que essa correria apenas me foi afastando de mim própria e foi dando força a tudo aquilo de que eu fugia. Corri até não ter forças, parei antes da corrida terminar por falta de forças de abdicar de mim própria para continuar a respeitar o meu abusador.


Agora que parei, parei sem forças.

Monday, October 18, 2021

 Todas as coisas que te escrevi em momentos de insanidade são a coisa mais sã que escrevi.

Sunday, October 17, 2021

Hoje ligaste, mais uma vez.  A conversa iniciou-se como já é costume, com perguntas que surgem com o pretexto de que existe algum tipo de preocupação. Irónico como depois de acabar que é ela te surge. E eu como sempre a cair como um patinho.

Depois da questão, aparentemente técnica e de assuntos inevitáveis que as pessoas conversam depois de terminar vem a real razão. Perguntaste-me como estou seguido de uma vaga afirmação embutindo que já sabes a resposta porque mesmo estando mal eu respondo que estou bem, bem respondi. Tu sorriste. Tentativa de mostrar familiaridade e cumplicidade entre nós depois de tanto mal que me fizeste. A dissimulação de preocupação e sentimentos de culpa era a minha rotina, e ai tive um flashback. Flashblack da altura da minha vida em que todas as técnicas de manipulação eram usadas contra mim como um feitiço.

Cá está a verdade. A verdade é que eu não sinto a tua falta, talvez sinta um pouco da pessoa que eu julgava que eras e da personagem que inicialmente criaste só para mim, mas essa pessoa não existe e nunca foi real. Sinto falta da personagem que criaste baseada naquilo que sabes que eu admiro.

Hoje confronto-me com a dura realidade de que essa pessoa nunca existiu. E para além disso, confronto-me com a dura realidade de que existem pessoas maldosas o suficiente para dissimular tudo isto.